Evangelho do dia – terça-feira, 26 de março de 2024 – João 13,21-33.36-38 – Bíblia Católica

Primeira Leitura (Is 49,1-6)

Leitura do Profeta Isaías.

Nações marinhas, ouvi-me, povos distantes, prestai atenção: o Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome; fez de minha palavra uma espada afiada, protegeu-me à sombra de sua mão e fez de mim uma flecha aguçada, escondida em sua aljava, e disse-me: “Tu és o meu Servo, Israel, em quem serei glorificado”.

E eu disse: “Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente; entretanto o Senhor me fará justiça e o meu Deus dará recompensa”. E agora me diz o Senhor – ele que me preparou desde o nascimento para ser seu servo – que eu recupere Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele; aos olhos do Senhor esta é a minha glória.

Disse ele: “Não basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra”.

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

Evangelho (Jo 13,21-33.36-38)

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, estando à mesa com seus discípulos, Jesus ficou profundamente comovido e testemunhou: “Em verdade, em verdade vos digo, um de vós me entregará”. Desconcertados, os discípulos olhavam uns para os outros, pois não sabiam de quem Jesus estava falando.

Um deles, a quem Jesus amava, estava recostado ao lado de Jesus. Simão Pedro fez-lhe um sinal para que ele procurasse saber de quem Jesus estava falando. Então, o discípulo, reclinando-se sobre o peito de Jesus, perguntou-lhe: “Senhor, quem é?”

Jesus respondeu: “É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho”. Então Jesus molhou um pedaço de pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Depois do pedaço de pão, Satanás entrou em Judas. Então Jesus lhe disse: “O que tens a fazer, executa-o depressa”.

Nenhum dos presentes compreendeu por que Jesus lhe disse isso. Como Judas guardava a bolsa, alguns pensavam que Jesus lhe queria dizer: ‘Compra o que precisamos para a festa’, ou que desse alguma coisa aos pobres. Depois de receber o pedaço de pão, Judas saiu imediatamente. Era noite.

Depois que Judas saiu, disse Jesus: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo. Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco. Vós me procurareis, e agora vos digo, como eu disse também aos judeus: ‘Para onde eu vou, vós não podeis ir’”.

Simão Pedro perguntou: “Senhor, para onde vais?” Jesus respondeu-lhe: “Para onde eu vou, tu não me podes seguir agora, mas seguirás mais tarde”. Pedro disse: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu darei a minha vida por ti!” Respondeu Jesus: “Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: o galo não cantará antes que me tenhas negado três vezes”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

Refletindo a Palavra de Deus

Caros irmãos e irmãs em Cristo,

Hoje, gostaria de começar nossa reflexão com uma pergunta: você já se sentiu traído? Já passou por uma situação em que alguém em quem você confiava profundamente o decepcionou? Tenho certeza de que muitos de nós já experimentaram essa dor, essa sensação de traição que nos atinge como uma flecha no coração. E é exatamente sobre esse sentimento de traição que gostaria de refletir hoje, à luz das passagens bíblicas que nos foram apresentadas.

Na primeira leitura, encontramos as palavras do profeta Isaías, que nos fala sobre o Servo Sofredor, o escolhido de Deus, que é chamado desde o ventre materno para realizar uma missão especial. O Senhor diz: “Antes de nascer, já eu te conhecia; antes de vires à luz, eu te consagrei, para seres meu profeta para as nações” (Is 49,1). Essas palavras nos lembram do amor incondicional de Deus por cada um de nós, de como Ele nos conhece desde o início e tem um plano único para cada um de nós.

Mas, infelizmente, nem sempre as coisas acontecem como esperamos. No Evangelho de João, somos apresentados à traição de Judas, um dos discípulos mais próximos de Jesus. Jesus, sabendo que sua hora havia chegado, reuniu seus discípulos para uma última ceia. Ele partilhou o pão com eles e disse: “Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me entregará” (Jo 13,21). A traição estava próxima, e o coração de Jesus devia estar cheio de angústia e dor.

A traição de Judas é um lembrete poderoso de como somos falhos e de como o mundo ao nosso redor está repleto de decepções. Mas também nos lembra da profundidade do amor de Deus, que mesmo diante da traição e da dor, nunca nos abandona. Assim como Jesus perdoou Judas, mesmo sabendo de sua traição iminente, Ele também nos chama a perdoar aqueles que nos traíram.

Quando refletimos sobre essas passagens bíblicas, percebemos que a traição está presente em nossa vida cotidiana de várias formas. Podemos ser traídos por amigos, familiares, colegas de trabalho e até mesmo por nós mesmos. No entanto, Deus nos chama a não permitir que a traição nos consuma. Ele nos convida a olhar para além da traição e a encontrar a cura em Seu amor misericordioso.

Uma imagem poderosa que podemos usar para entender essa cura é a de uma ferida. Quando somos traídos, uma ferida é aberta em nosso coração. Essa ferida pode nos consumir, nos prender ao passado e nos impedir de seguir em frente. Mas Deus, em Sua infinita misericórdia, deseja curar nossas feridas e nos libertar do peso da traição. Ele é como um médico amoroso que aplica um bálsamo curativo em nossas feridas, trazendo alívio e restauração.

Ao refletir sobre a traição, também podemos nos lembrar da traição de Pedro, outro dos discípulos de Jesus. Pedro, cheio de confiança em si mesmo, disse a Jesus: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu darei minha vida por ti!” (Jo 13,37). No entanto, pouco tempo depois, ele negou Jesus três vezes. Pedro experimentou em primeira mão o peso da traição e a dor da negação.

Mas a história de Pedro não termina aí. Após a ressurreição de Jesus, Ele aparece a Pedro na praia e pergunta-lhe três vezes: “Pedro, tu me amas?” (Jo 21,15-17). Essas três perguntas correspondem às três negações de Pedro. E, à medida que Pedro responde com um sincero “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”, Jesus o comissiona a cuidar de Suas ovelhas, a continuar Sua obra.

Essa história de redenção nos mostra que Deus pode usar até mesmo as experiências mais dolorosas de traição para nos transformar e nos capacitar a sermos melhores. Ele não nos deixa presos ao passado, mas nos chama a olhar para o futuro com esperança e propósito.

Diante dessas histórias de traição e redenção, como podemos aplicar esses princípios em nossas próprias vidas? Primeiro, precisamos reconhecer que todos somos suscetíveis à traição. Nenhum de nós está imune a decepções e feridas emocionais. No entanto, o poder da fé está em como respondemos a essas situações.

Em vez de nos deixarmos consumir pelo ressentimento e pela amargura, somos chamados a perdoar como Jesus perdoou. O perdão não significa ignorar a dor ou aceitar o comportamento traidor, mas sim liberar o peso do rancor e permitir que Deus cure nossos corações. O perdão nos liberta para viver uma vida plena, cheia de amor e alegria, em vez de sermos escravizados pelo passado.

Além disso, devemos lembrar que todos nós, em algum momento, também podemos ser os traidores. Quantas vezes traímos a confiança de Deus e nos afastamos de Seus caminhos? No entanto, assim como Jesus perdoou Judas e Pedro, Ele também nos estende Sua mão de misericórdia. Não importa o quão longe tenhamos ido, o quanto tenhamos nos afastado de Seus ensinamentos, Deus está sempre disposto a nos acolher de volta em Seu abraço amoroso.

E, finalmente, assim como Pedro foi chamado a cuidar das ovelhas de Jesus, também somos chamados a cuidar uns dos outros. A traição pode deixar cicatrizes profundas nas pessoas, e é nossa responsabilidade agir com compaixão e empatia. Devemos ser instrumentos do amor de Deus, oferecendo apoio, consolo e orientação àqueles que foram feridos.

Queridos irmãos e irmãs, hoje somos desafiados a refletir sobre o tema da traição e da redenção. Que possamos encontrar força na Palavra de Deus e no exemplo de Jesus para superar as traições em nossas vidas. Que possamos perdoar como fomos perdoados e estender a mão da misericórdia aos outros. E que possamos ser agentes de cura e esperança em um mundo ferido pela traição.

À medida que nos preparamos para receber a Eucaristia, o sacramento do amor e da reconciliação, peçamos a Deus que nos ajude a perdoar aqueles que nos traíram e a encontrar a cura para nossas próprias feridas. Que a graça de Deus esteja conosco, fortalecendo-nos e guiando-nos em nosso caminho de discipulado.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.


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